Repórter mostra como opera o “exército” de Bolsonaro no WhatsApp

Nesse universo paralelo, Bolsonaro é o estadista incorruptível, o filho de Lula está em todas as falcatruas e o STF virou saco de pancadas

Foto: Catraca Livre

“BOMBA. Olha aí o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) recebendo propina, ele mesmo que chamou o Ministro Sérgio Moro de ladrão. Divulguem sem dó pra esse bandido safado perder o mandato. Isso a Globo ainda não mostrou é em primeira mão. Divulguem (sic).” A mensagem, sempre esse primor no trato com a língua pátria, foi postada às 8 horas e 22 minutos da terça-feira 8 no grupo de WhatsApp MG MILITANTES B17, encaminhada de outro grupo ou conversa privada. Seguiu-se então a prova do crime: o vídeo que mostra um senhor de meia-idade, flagrado pela câmera escondida, a enfiar maços de notas em sua farta cueca. Nada a ver com o deputado federal do PSOL. “Não tem nem semelhança”, comentou o também deputado e colega de partido Marcelo Freixo ao ver a fake new. “Esses caras não têm vergonha.” A postagem foi feita por uma pessoa que se identifica como Irany, DDD 37, interior de Minas Gerais. Se verdadeiro o seu perfil, trata-se de uma senhora já em idade avançada e cujo status do aplicativo descreve como “De bem com a vida”. A frase vem acompanhada pelo emoji do rostinho com corações a saltar dos olhos.

Desde o dia 29 de setembro, este repórter encontra-se infiltrado em dois grandes grupos bolsonaristas no WhatsApp – o MG MILITANTES B17 e o BRASIL BOLSONARISTA RO, de Rondônia. O ingresso foi feito através de um “link de convite” disponibilizado na internet em lista onde constavam vários outros, separados por estados e capitais. Em 16 de setembro, pouco antes de surgirem tais acessos, o “filósofo” Olavo de Carvalho sugeriu organizar a militância. “A coisa mais urgente no Brasil é uma militância bolsonarista organizada”, disse o Napoleão do hospício em transmissão no Facebook. “Note bem, eu não disse militância conservadora, nem militância liberal, nem coisa nenhuma. Eu falei militância bolsonarista. A política não é uma luta de ideias, é uma luta entre pessoas e grupos.”

Na descrição do grupo BRASIL BOLSONARISTA RO, lê-se: “Estamos organizando um Exército Virtual de apoio ao nosso presidente Jair Bolsonaro. Para isso, estamos organizando grupos de compartilhamento de notícias Pró-Bolsonaro por estado e por cidade. Os grupos serão extremamente focados e com o único objetivo de espalhar pela internet as notícias que a extrema imprensa não mostra”. Seu idealizador apresenta-se como Pablo Carvalho, DDD 63. “Faço parte de um grupo de brasileiros, patriotas, direitistas e conservadores de Palmas, que conta com a ajuda e colaboração de vários outros em todo o Brasil”, escreveu em mensagem do dia 26 de setembro. “Informo que esta é apenas a primeira fase desta missão. Um tsunami em apoio ao Presidente Jair Bolsonaro vai tomar de vez o Brasil (…). Compartilhe com o máximo de contatos e grupos todas as matérias positivas que você receber pelos grupos Brasil Bolsonarista. Todas são checadas e provêm de fontes confiáveis.”

Na terça-feira 8, o WhatsApp admitiu pela primeira vez que candidatos utilizaram sistemas automatizados para promover disparos em massa de mensagens na última eleição, o que é proibido pelo TSE. “Na eleição brasileira do ano passado houve a atuação de empresas fornecedoras de envios maciços de mensagens, que violaram nossos termos de uso para atingir um grande número de pessoas”, disse Ben Supple, gerente de políticas públicas e eleições globais do WhatsApp, em palestra no Festival Gabo, na Colômbia. No mesmo evento, Supple condenou os grupos públicos do aplicativo acessados por links e que distribuem conteúdo político, como é o caso dos dois visitados por CartaCapital. “Vemos esses grupos como tabloides sensacionalistas, onde as pessoas querem espalhar uma mensagem para uma plateia e normalmente divulgam conteúdo mais polêmico e problemático. Nossa visão é: não entre nesses grupos grandes, com gente que você não conhece. Saia desses grupos e os denuncie.”

Celulares programados para envio em massa de mensagens Foto: UOL

Uma vez chafurdado no grupo dos bolsonaristas, prepare-se para o tsunami de ódio, preconceito e notícias falsas. Neste universo paralelo, Jair Bolsonaro é o estadista incorruptível. Sérgio Moro, antes o herói caçador de corruptos, é agora o mais mortal exterminador de bandidos. Enéas Carneiro e Olavo de Carvalho, dois dos maiores pensadores que o mundo já produziu. Deus é onipresente. No entanto, seu entreposto, o papa Francisco, é o próprio demônio.

Nos grupos vê-se a fábrica de fake news em plena atividade. A maior parte dos conteúdos é publicada pelos administradores

No caso de haver algum marasmo, basta chamar Lula e o PT, e então os dedinhos se mobilizam em frenética produção de impropérios. Luciano Huck e João Doria, presidenciáveis, são alvos “comunistas” por ora circunstanciais. Desde que assegurei vaga neste hospício, o sparring preferido pelos bravos combatentes é o Supremo Tribunal Federal. “Não se limpa o chiqueiro com os porcos dentro. Fora todos”, dizia uma mensagem com a foto dos ministros do STF. “Exército, o Brasil te chama!”, conclamava outra, em maiúsculas. “Não podemos mais ficar reféns de bandidos e um estado corrupto. Por um país mais justo, educado e eficiente na administração… Assumam o poder! Repassem para 20 contatos. Em 1 hora, seremos milhões.” E abundam os áudios de supostos generais a convocar a “revolução”.

Além das fotografias de bandidos mortos em ações da Polícia, tem também as “fotos da Venezuela enviadas dos Estados Unidos porque a mídia não mostra a situação real” – e salpicam-se então imagens de crianças esquálidas, velhos faquires deitados em camas de um hospital em ruínas, pessoas a atacar o gado e desmembrá-lo vivo, cada um por si na luta pelo acém e o coxão duro. A produção audiovisual é, no entanto, o filé-mignon. De Teófilo Otoni, um prefeiturável com voz de radialista caricato e chapéu do Zorro promete “expulsar os petistas da cidade e tomar suas casas”. Em fins de setembro, uma sequência de imagens pornográficas foi publicada no grupo pelo componente Clayton Bezerra.

“Lamentável isso”, disse um Richard Paiva. “Mandei errado”, desculpou-se Bezerra. “São infiltrados tentando acabar com o grupo”, esclareceu Walter Oliveira, um dos administradores. A esta altura a vaca tinha ido para o brejo e Bezerra acabou eliminado.

“Onde estava o Coaf quando R$ 317 milhões circularam entre 12 contas do Lulinha?”, questionou um bolsominion. “O filho do Lula mora em um apartamento de 7 milhões de reais, milionário. O Coaf nunca achou nada de irregular, por que será?”, insistiu outro. Sobre Flávio Bolsonaro, silêncio tumular. Já o Lulinha dono da Friboi, esse clássico das fake news comparável apenas à mamadeira de piroca, segue vivinho da Silva. Nos últimos dias, uma foto de Fernando Haddad e sua esposa na porta de um avião sugeria que o petista é o dono da aeronave, adquirida, por óbvio, com dinheiro sujo.

Foto: Reprodução da internet

A legenda: “Se você enviar para apenas 20 contatos em um minuto… o Brasil inteiro vai desmascarar este Bandido. NÃO quebre essa corrente. Os incautos precisam ser esclarecidos antes que seja tarde demais…”

O conteúdo de um grupo é rapidamente replicado em outro. Os incautos precisam ser esclarecidos antes que seja tarde demais

Apenas na quarta-feira 9, 116 mensagens haviam sido postadas no MG MILITANTES B17, entre elas uma sequência de fotos das “propriedades” de Lula, o que incluía uma indústria de grande porte e a vista aérea de um pasto com centenas de cabeças de gado. A maioria dos textos, as artes, os vídeos e as fotografias são publicados pelos administradores. O conteúdo de um grupo rapidamente aparece replicado no outro. Os incautos precisam ser esclarecidos antes que seja tarde demais…

Fonte: Carta Capital

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