Reunião ministerial mostrou a diarreia da prepotência e da boçalidade

Todo esse baixo nível que o país pode presenciar da reunião ministerial de 22 de abril revelou algo fácil de se compreender do ponto de vista de certas tendências comportamentais. De menos o horror por palavrões, tropeços semânticos e leviandades.

Foto: ABJD

O mais terrível é a empáfia e a hybris do poder exercido por gente inescrupulosa e ignorante. Quando não acostumados, seres humanos em geral podem correr o risco da prepotência e da arrogância quando chamados para exercer algum poder através de cargos públicos e privados também.

Evidente que talvez saiam-se melhores aqueles que possuem e misturam, ao mesmo tempo, competência em determinada especialidade, sabedoria, sensibilidade, senso de hierarquia, equidade e justiça, bem como a compreensão do micro e do macroambiente e da complexidade do processo de políticas públicas. Mas, no caso em questão, seria esperar demais.

A reunião, que veio à tona pelo próprio caráter errático das contradições da política, revelou a pior possibilidade do ser humano quando alçado a chefias, qual seja: o exercício do poder por imbecis, inescrupulosos, boçais, desonestos e ignorantes.

O poder para essa gente é algo de natureza sempre privada, possibilidade de dominação sobre os mais fracos, para fins de exploração e rapina no que acreditam deva ser o mundo como um salve-se quem puder. São hobbesianos.

Não se trata, portanto, da falta de elegância ou de fidalguia expressa por palavrões. Não se trata apenas de educação ou etiqueta da liturgia do cargo. Claro que o noticiário não podia deixar de dar conta do uso de linguagem chula, comum quando é mal frequentado o botequim mais furreco ou o alambrado do futebol de várzea.

Nem se precisa dizer que as intenções e as ideias dessa gente são flagrantes. A linguagem não é só instrumento veicular do pensamento. A linguagem faz parte do próprio pensamento. O discurso do sujeito se constitui como processo totalizante entre forma e conteúdo. O sujeito se faz pelo discurso. A fala é o próprio sujeito.

Para refinar e sofisticar essas observações, poderíamos lembrar, dentre outros, o que dizia sobre isso Mikhail Bakhtim. Para o pensador russo, enunciados são construídos não apenas pelo sujeito que fala ou escreve, mas sim por um processo complexo que inclui relações recíprocas entre ele, sujeito, o contexto do discurso e quem vai receber sua informação. Emissor e receptor são sujeitos ativos nesse processo.

Os caras achavam que estavam num conclave privado, e o resto que se dane! Trataram como reunião de caráter particular, coisa de patota, porque acham que negócios do estado devem ser tratados como algo entre amigos e familiares. Toscos e golpistas acham que administrar um governo é o mesmo que cuidar da sua própria casa ou da sua empresa privada, casa da mãe joana, da vovozinha ou o escambau.

A prepotência e a arrogância, em contraste com a inteligência, são mais incidentes e comuns nesse tipo de gente, que sabe, consciente ou inconscientemente, que não tem legitimidade perante amplas parcelas da sociedade e “crescem” com palavrões, ameaças e disenterias verbais incentivadas pelo chefe.

Na verdade, a arrogância e a prepotência saem assim à vontade, sem o controle do esfíncter cognitivo, justamente por causa da fraqueza e tibieza intelectual dessas pessoas e de sua sôfrega e inevitável puxação de saco de quem pode demiti-los a qualquer momento.

Reforçam a bizarrice e a truculência e, descontrolando-se, acabam se borrando numa diarreia de argumentos e falas desconexas, aumentando ainda mais o odor nauseabundo dessa nuvem obscurantista que estacionou sobre o Brasil. Mas, os ventos das contradições e dos conflitos vão levá-la embora, questão de tempo. Como a pandemia, vai passar!

Fonte: Portal Disparada

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