Por que nosso orgulho é resistência?

Vivemos em mundo marcado pela confluência de múltiplas e profundas crises. Crise política, econômica, social, crise ecológica, no mundo do trabalho, de saúde e valores.

Foto: Reprodução da internet

O capitalismo se mostra absolutamente insuficiente para solucionar suas próprias contradições e assegurar a vida em sociedade. Pelo contrário: só faz aprofundar as desigualdades e barreiras sociais, acelerar o ritmo das mudanças climáticas e intensificar o sofrimento da população pobre e trabalhadora no mundo.

Nesse cenário, ganham força os discursos de ódio, autoritários, machistas, racistas, LGBTfóbicos e xenófobos, que buscam voltar a maioria social contra os setores mais marginalizados da sociedade, dividir e enfraquecer os movimentos da classe trabalhadora e elevar a taxa de exploração da força de trabalho humana. Bolsonaro e Trump são expressões desse processo. Não à toa, Bolsonaro iniciou a ascensão midiática que o levaria à Presidência da República atacando o movimento LGBT e polemizando com factóides como o “kit gay” e a “mamadeira erótica”.

A escalada desses discursos foi pavimentada pelos grupos e organizações de esquerda que se furtaram a travar o combate contra a LGBTfobia e abriram espaço para seu crescimento e massificação. Não podemos esquecer que o tal “kit gay” que catapultou Bolsonaro tratava-se na verdade de um programa de combate à LGBTfobia nas escolas que foi sacrificado pelo governo do PT em troca do apoio da bancada fundamentalista no Congresso Nacional, de onde se projetaram Marco Feliciano, Marcelo Crivella, Eduardo Cunha e o próprio Bolsonaro.

Hoje o Brasil convive com um presidente que incentiva abertamente a violência contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e se escora no apoio dos setores conservadores, obscurantistas, fundamentalistas e militarizados da política nacional e internacional. Não bastasse isso, o Brasil ostenta há anos o posto de país com mais mortes de LGBTs no mundo e um quadro de barbárie generalizada contra a população de travestis e transexuais, com uma expectativa de vida média limitada à faixa dos 30 anos. A crise econômica e o desemprego atingem especialmente as LGBTs que ocupam os postos de trabalho mais precários e a informalidade, assim como a pandemia do coronavírus.

A LGBTfobia, a misoginia, o racismo e a xenofobia da extrema-direita brasileira não são meras cortinas de fumaça para encobrir seus planos de destruição dos direitos do povo e desmonte do Estado, mas parte intrínseca desses processos. Bolsonaro depende da opressão sistemática das mulheres, LGBTs, negros e negras, povos indígenas e comunidades das periferias para implementar seu projeto político.

51 anos depois da Revolta de Stonewall, o movimento LGBT no Brasil precisa seguir o exemplo dos levantes feministas e das lutas antirracistas no mundo e entrar em cena para combater o autoritarismo que se apossou do poder do Estado e a barbárie do capitalismo e da intolerância. A afirmação das nossas existências, dos nossos corpos, dos nossos afetos e do nosso orgulho nunca foi tão necessária, porque são marcos da nossa resistência contra a opressão, a exploração e a política de repressão sexual, violência e morte da extrema-direita. A conquista de vitórias parciais como a criminalização da LGBTfobia no ano passado, a permissão da doação de sangue e a ocupação de cada vez mais espaços públicos por pessoas LGBTs comprovam a potência da nossa mobilização, mesmo em um cenário de retrocessos.

As LGBTs, junto com os movimentos de mulheres, antirracista, estudantil, popular e sindical, podem liderar a maioria social capaz de derrotar Bolsonaro e sua agenda de retrocessos e mortes. Nosso orgulho é o primeiro passo dessa resistência, mas precisamos ainda nos organizar coletivamente, fortalecer nossas ideias, erguer nossas bandeiras e enfrentar de frente nossos inimigos.

A nova coluna LGBT do Esquerda Online

Neste 28 de julho, Dia Internacional do Orgulho LGBT, o Esquerda Online inaugura sua nova coluna de autoria coletiva: Orgulho é resistência. Essa coluna será um canal livre e democrático de debates políticos e anticapitalistas do movimento LGBT. Seu objetivo é promover uma confluência de ideias dentro do nosso movimento para nos preparar e armar politicamente para as lutas que virão.

Se Bolsonaro nos quer de volta aos armários ou dentro dos caixões, pode ir se preparando porque as LGBTs estão se organizando, movimentando e amando. Daqui em diante, não mais recuos, só passos em frente.

Fonte: Esquerda Online

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