Militares ameaçam intervenção na França para defender a nação e ganham apoio de Marine Le Pen

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Destaque na imprensa francesa para a líder de extrema direita Marine Le Pen, que manifesta seu apoio a uma carta aberta de mil militares, incluindo 24 generais, que alertam para os riscos de uma situação de caos na França.
A imprensa francesa questiona nesta terça-feira (27) se a líder de extrema direita Marine Le Pen, candidata à eleição presidencial de 2022, voltou a mostrar sua verdadeira face antirrepublicana ao manifestar apoio a uma carta aberta de 1.200 militares da reserva, incluindo 24 generais. No texto, publicado na semana passada pela revista ultraconservadora Valleurs Actuelles, os oficiais acenam com uma intervenção caso o presidente Emmanuel Macron não aja para “erradicar os perigos” que estariam levando o país à desintegração e ao declínio.

A iniciativa do texto partiu do ex-capitão Jean-Pierre Fabre Bernadac, de 70 anos, que abandonou o uniforme em 1987 e depois se converteu em agente de segurança de um grupo de luxo, observa o jornal liberal L’Opinion. A publicação destacou em sua manchete: “Exército e extrema direita: militares da reserva sonham com uma insurreição”.

Jornal L'Opinion diz em sua manchete que Exército e extrema direita "sonham com uma insurreição".
Jornal L’Opinion diz em sua manchete que Exército e extrema direita “sonham com uma insurreição”. © Fotomontagem RFI/Adriana de Freitas

O documento foi publicado no dia em que o “Golpe dos generais” de 21 de abril de 1961, também chamado de “Golpe de Argel”, completou 60 anos. Na época, um grupo de militares, liderados por quatro generais, tentou dar um golpe de Estado contra o então presidente Charles de Gaulle por ele ter decidido abrir mão da colonização da Argélia.

A carta endereçada ao presidente Macron, e que recebeu o apoio de Marine Le Pen, diz textualmente:

“Estamos prontos para apoiar políticas que levem em consideração a salvaguarda da nação. Por outro lado, se nada for feito, a frouxidão continuará a se espalhar inexoravelmente na sociedade, acabando por causar uma explosão e a intervenção de nossos companheiros ativos em uma missão perigosa para proteger nossos valores civilizacionais. Contaremos milhares de mortos que estão sob sua responsabilidade.”

Em suma, as Forças Armadas se engajariam contra a “desintegração” do país para a “erradicação dos perigos” que o ameaçam, como o “islamismo, as hordas das periferias [no caso da França, habitadas majoritariamente por imigrantes e seus descendentes], um certo antirracismo”, prossegue o texto. A carta também defende “os franceses de coletes amarelos que expressam seu desespero”.

Questionada se não via uma ameaça de guerra civil no país, em entrevista à rádio France Info, a líder populista disse que não havia nada de novo nessa constatação. “A situação no nosso país é tão grave (…) vários políticos já falaram em situação de guerra civil em certos bairros da periferia”, afirmou a candidata.

Ministra das Forças Armadas defende punição aos assinantes da carta

A ministra das Forças Armadas, Florence Parly, defende sanções contra os militares que desrespeitaram o dever de reserva, incluindo os vinte generais signatários do documento. Ela se refere à iniciativa como “irresponsável” e defende também a punição dos soldados ativos que aderiram ao manifesto. “Pedi ao chefe do Estado-Maior que aplicasse as regras que estão previstas no estatuto dos militares, ou seja, as sanções”, disse a ministra em entrevista à rádio France Info.

Entre os generais signatários do texto figura Christian Piquemal, já punido em 2019 por participar de uma manifestação em Calais (norte) contra a “islamização da Europa”. Mas nenhum general cinco estrelas do Exército endossou a ameaça.

Em seu editorial, a rádio France Inter nota que o texto propaga o mesmo estilo de ideias defendido pelo jornalista Éric Zemmour, o principal polemista de extrema direita na TV. “A França declina sob a ameaça de perigos mortais (…) e de uma guerra racial que está por vir no contexto da teoria da grande substituição”, que faz sucesso entre nacionalistas de extrema direita. A “grande substituição” é uma teoria da conspiração da extrema direita sobre o desaparecimento dos “povos europeus”, “substituídos”, segundo os defensores desta teoria, por populações não europeias imigrantes.

Marine Le Pen diz compartilhar a “aflição” manifestada pelos militares franceses, que devem “se levantar para salvar o país”. A um ano da eleição presidencial, a candidata convida “os patriotas” a se unir a ela nesta “batalha pacífica”.

Segundo o Cevipof, centro de pesquisas em ciências políticas da universidade Sciences Po Paris, mais de 40% dos militares votaram em Le Pen na presidencial de 2017. Seu programa previa aumentar as despesas militares para 3% do PIB, a contratação de 50 mil militares, a modernização de equipamentos das Forças Armadas e o restabelecimento do serviço militar obrigatório por um período mínimo de três meses.

Em seu editorial político matinal desta terça-feira, a rádio France Inter diz que Marine Le Pen defende “o separatismo institucional”. “Ela pretende dirigir a República, mas enquanto simples candidata já elimina as fronteiras entre o civil e o militar, entre um eleito e um soldado”, escreve o jornalista Yael Goosz. “Falta de lucidez, amadorismo, busca de votos na direita dura?”, indaga o jornalista. Sem dúvida, um pouco de tudo isso.

Fonte: RFI

 

 

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