Demissão de Moro escancara suas contradições

A saída de Sergio Moro, ex-juiz da Lava Jato, do Ministério da Justiça do governo Bolsonaro revela mais do que as aparências podem demonstrar. Além de trazer à tona uma negociata feita às escuras pelo então juiz e por Bolsonaro na ocasião da oferta do cargo, Moro deixa para trás um Ministério que não tocou em temas escandalosos durante sua gestão.

Brazil’s Justice Minister Sergio Moro attends a news conference, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak in Brasilia, Brazil April 13, 2020. REUTERS/Adriano Machado

Ao conceder entrevista coletiva na manhã desta sexta-feira, 24, Moro revelou ter negociado explicitamente com Bolsonaro, por motivo de estar deixando a magistratura de 22 anos, um benefício material para sua família em troca de aceitar ser o ministro da Justiça.

“Eu pedi que se algo me acontecesse, que minha família não ficasse desamparada sem uma pensão. Foi a única condição que coloquei para assumir essa posição específica no ministério da Justiça”, revelou Moro, abordando o acordo como um segredo, que agora não faria diferença revelar.

As revelações não param por aí. Ao se demitir, Moro delatou a interferência política do presidente da República no funcionamento da Polícia Federal, que deveria preservar autonomia. Ao mesmo tempo, ele próprio se acusa: ao não trazer a público e buscar investigar e punir a conduta ilegal de Bolsonaro, o ministro prevaricou. Somente revelou a denuncia após negociação sem sucesso para se manter no cargo.

Um currículo cheio de vazios

Moro não sai por cima da pasta da Justiça e do governo que ajudou a criar. Sai diminuído por questionamentos vindos de diversos setores da sociedade. Sua atuação durante o cargo de ministro foi tímida e pífia e não tocou em temas escandalosos, que estariam a cargo de sua pasta.

O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson em março de 2018, completa, no dia da saída de Moro do Ministério da Justiça 772 dias sem as respostas de quem são os mandantes do crime e qual sua motivação.

Sérgio Moro violou sigilo funcional quando da investigação da Polícia Federal sobre o caso dos “laranjas do PSL”. A declaração feita por Bolsonaro de que “ele (Moro) mandou cópia do que foi investigado pela Polícia Federal para mim. Mandei um assessor meu ler porque eu não tive tempo de ler” revela conduta escusa do então ministro em benefício do presidente e seu partido.

E não se pode encerrar o currículo às avessas do ex-ministro sem abordar um questionamento que o acompanha desde seu primeiro ano no cargo: “Cadê o Queiroz?” Mesmo com evidências de movimentações milionárias ilegais do ex-assessor de Flavio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, o então ministro Moro nada sabe, nada fez. Seria esse um possível motivo para mudanças na PF e, consequentemente, sua demissão?

As irregularidades e omissões não param por aí. Houve silêncio total quando da queima de arquivo do caso Marielle ocorrida na Bahia e sobre as revelações feias pelo The Intercept Brasil na VazaJato.

Fonte: Lula Livre.org

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