Da cruz de caravaca ao olavismo cultural

Quando explodiu a polêmica envolvendo o agora ex-secretário Roberto Alvim, que parafraseou trechos e copiou estéticas do propagandista nazista Joseph Goebbels durante o anúncio do Prêmio Nacional das artes, os Piratas postaram em sua fanpage um meme com intenções cômicas comparando indiretamente a cruz com dois braços que estava em cima da mesa do ex-secretário Alvim com o símbolo do grupo liderado pelo Alto-Chanceler Adam Sutler, vilão do filme V de Vingança.

Foto: Reprodução da internet

Após a explosão da polêmica, no entanto, surgiram alguns artigos interessantes na Imprensa explicando a origem da cruz e, ao que tudo indica, a cruz utilizada no filme V de Vingança é uma referência à cruz de Lorena, enquanto que a cruz pousada ao lado do ex-secretário Alvim era a cruz de Caravaca.

Seriam, portanto, duas cruzes diferentes, com origens distintas, mas que compartilham a mesma ideia de estarem associadas ao ideal das cruzadas, de uma ativa expansão da fé cristã e em especial com a figura dos templários.

As preferências de Roberto Alvim pelos ideais das cruzadas já eram claros há bastante tempo, como mostra a expressão abaixo “Deus Vult

Deus vult (“Deus o quer!” em latim) foi o grito do povo quando o papa Urbano II declarou a Primeira Cruzada no Concílio de Clermont, em 1095, quando a Igreja Ortodoxa pediu ajuda ao ocidente para interromper a expansão islâmica.

No Brasil, essa referência cruzadista vem sendo utilizada pelo movimento que se formou na Internet em volta de Bolsonaro ainda antes da eleição, copiando e emulando os mesmos memes que a direita alternativa norte-americana passou a produzir a partir do jogo Crusader Kings 2 – Holy Fury, um jogo para PC de 2012 que se passa na época das Cruzadas na Europa.

Também conhecido como alt-right, esse movimento originário da Internet apoiou ativamente a eleição de Trump. Grande parte da eleição de Bolsonaro envolveu memes de Internet que emularam técnicas utilizadas na eleição de Trump, como já notamos em artigo anterior.

Mas o que o Brasil tem a ver com as Cruzadas e os Templários?

Quando as pessoas pensam nas cruzadas em geral, elas associam o termo apenas com os eventos que ocorreram na cidade de Jerusálem, mas diversas das Ordens Militares formadas na Europa para lutar pela cidade de Jerusalém foram utilizadas para dar combate aos mouros (como eram chamados genericamente os muçulmanos na época) que controlavam territórios na própria Europa há algumas centenas de anos, especialmente na penísula Ibérica, região que engloba o atual território de Portugal e Espanha, desde pelo menos o século VI.

O próprio jogo “Cruzader Kings 2”, que originou os memes originais de Deus Vult, possui entre suas opções de jogo a campanha “Reconquista Portuguesa”, que busca emular como Portugal formou e consolidou seu território, na mesma época das cruzadas, a partir dos territórios europeus que estavam em controle dos muçulmanos.

A reconquista, que se iniciou junto com as cruzadas de 1095, foi concluída em 1385 em Portugal, enquanto que na Espanha foi concluída apenas com a tomada de granada dos Mouros em 1492, sendo que a cidade de Caravaca, onde surgiu a cruz Caravaca, fica na Espanha próximo de Granada e está ligada à figura de um rei mouro que se converteu ao cristianismo devido ao surgimento milagroso dessa cruz.

Esse conflito militar entre cristãos e muçulmanos, que durou centenas de anos, se prolongaria ainda pelas décadas seguintes, mas se transferiria ao mediterrâneo e envolveria os Piratas Bérberos, ou Piratas da Barbária, que controlavam diversas cidades na costa de Marrocos, no norte da África.

Entre os conflitos náuticos mais famosos da época estão os conflitos entre os cruzados e o Pirata Barba-Ruiva, que secretamente não era um, mas sim dois irmãos originários da ilha de Lesbo na Grécia, que atuaram como corsários a serviço do Império Otomano. em defesa dos ataque dos cruzados cristãos, em especial da Ordem de São João.

Todo esse período teve associado a ele a uma série de reformas na Igreja Católica, que buscaram reforçar a pureza da fé e se iniciaram ainda no inicio das cruzadas, como a instituição do celibato entre os clérigos e monges da igreja. O símbolo máximo desse período, que envolvia militarismo e castidade, é representado pela figura do templário, que carrega consigo a imagem de soldado de Deus: o monge celibatário que combate os hereges.

Poucas pessoas sabem, mas Portugal foi provavelmente o país que contou com a maior proporção relativa de Templários atuando em seu território em conflito contra os mouros, especialmente quando consideramos a população e território mais reduzidos de Portugal. Embora tenha sido originalmente criada para orientar e defender os peregrinos que seguiam pela estrada até Jerusalém, os templários passaram a ganhar cada vez mais prestígio junto ao Papa e passaram a atuar na reconquista da península ibérica.

Os templários tiveram um papel ativo na conquista de Lisabona, atual Lisboa, sob controle dos muçulmanos e chegaram a possuir três fortes diferentes sob seu controle no país, como o castelo-convento na cidade de Tomar, além de terem recebido diversas doações de terras da nobreza.

Como descreve Jorge Caldeira, quando a ordem Templária foi abolida após acusação de heresia feita pelos partidários de Felipe o Belo, rei da França, país que era sede dos templários na Europa, o Rei de Portugal resistiu à ideia restituir os bens doados para os Templários para o vaticano e decidiu transferi-los para a Ordem de Cristo, que estava a serviço da Coroa Portuguesa e passou a ser controlada pelos Jesuítas, que tiveram papel importante não apenas na colonização do Brasil, mas em toda a expansão do Império Português.

A própria cruz de caravaca foi incorporada pelos Jesuítas no Brasil, passando a ser denominada de cruz missioneira e a ter um significado mais ligado ao zelo humilde da fé cristã. A própria história de Inácio de Loyola, fundador da ordem de cristo, que na juventude era aficionado por romances de cavalaria e que passou a ler a história dos santos enquanto se recuperava após ter a perna esmagada por uma bala de canhão em uma batalha, mostra como os ideais cavalarescos agressivos que existiam entre os templários passaram a ser traduzidos no humanismo devotado dos jesuítas praticado pela Ordem de Cristo.

O resultado final é que o espírito cruzado de expansão militar em nome da fé está diretamente associado tanto ao processo de formação de Portugal, quanto ao processo de expansão do Império Português, assim como a própria descoberta no Brasil por Pedro Álvares Cabral, que carregava nas velas de seu navio a cruz da Ordem de Cristo, a mesma que originalmente havia sido ostentada pelos templários de Portugal durante a reconquista.

Ainda assim, esse sentimento de orgulho nacional calcado em elementos religiosos continuaria patente dentro dos limites dos domínios portugueses, como mostra a esperança do Padre Antônio Vieira de que o término da disputa entre Madri e Lisboa na época da União Ibérica pudesse permitir que os portugueses vitoriosos pudessem banhar suas espadas “no sangue dos hereges da Europa, no sangue dos muçulmanos na África, no sangue dos pagãos da Ásia e na América, conquistando e subjugando todas as regiões da Terra debaixo de um único império para que pudessem todas, sob a égide de uma só coroa, ser gloriosamente colocadas aos pés do sucessor de São Pedro”

As cruzadas e o Olavismo

Fica patente, portanto, que quando Roberto Alvim decidiu incorporar a cruz de caravaca ao seu projeto cultural imbuído de um caráter “heróico”, como ele mesmo descreve, ele decidiu dar a ela um significado associado com o lema “Deus Vult”, de maneira análoga à bandeira Imperial do Japão, que apresenta raios se expandindo do sol vermelho presente na bandeira clássica. Um conceito de expansão dos ideais cruzados de altos valores ocidentais e alinhados aos valores cristãos.

Embora ainda existam analistas que ainda insistem em associar o episódio do ex-secretário Alvim a um possível equívoco (ou “trolagem”) feito pelo “estagiário” da área que, por acaso, copiou o discurso do nazista Goebbels, basta ouvir a live feita no dia anterior ao lado de Bolsonaro, que elogia o projeto do seu secretário quando o mesmo anuncia o intuito do projeto de promover uma arte “sadia”. O conceito de uma arte sadia está diretamente ligado ao conceito de “arte degenerada” e de resgaste dos valores clássicos presentes no fascismo, mas principalmente nas ideias de Hitler, que condenava os valores da arte moderna, como as abstrações de Picasso ou Salvador Dalí, algo que, na visão dele acabava contribuindo para a degeneração dos valores morais da sociedade.

Ironicamente, aquele que talvez tenha mais se surpreendido com a suposta confusão feita pelo secretário não tenha sido nem Bolsonaro, mas Olavo de Carvalho, que poucas horas depois do anúncio do secretário, já havia havia demonstrado a opinião de que “o secretário provavelmente não está batendo bem da cabeça”.

E é irônico porque Olavo sempre propôs como parte do seu projeto filosófico um resgate de uma arte e uma literatura de altos valores ligada a uma defesa dos valores ocidentais. O velho simplesmente não gosta de nada que tenha ocorrido depois de maio de 68, sempre colocando no mesmo balaio a cultura hippie, a filosofia pós-moderna e as músicas de Chico Buarque e Caetano Veloso como associadas a um tipo de cultura popular rasteira que estimula o banditismo.

Não é difícil entender, no entanto, porque a proposta de uma forma de cultura heroica, associada a valores superiores e ao resgate dos valores culturais associadas a uma cultura de combate tenha desaguado em uma emulação das estéticas nazistas, pois o nacional-socialismo de Hitler se propunha a exatamente esse mesmo tipo de projeto.

Isso quer dizer que qualquer defesa de uma cultura pautada no nacionalismo ou de um projeto nacional irá necessariamente implicar em um projeto nazista? Não, isso não ocorreu devido a uma proposta de uma arte ligada a valores nacionais, mas sim de uma cultura de resgate aos valores imperiais, ou, mais especificamente, da busca de uma expansão e imposição desenfreada dos valores de um grupo restrito para toda a sociedade.

Esse mesmo conceito de resgate da ideia de Império também estava presente no movimento fascista italiano, que buscava resgatar a cultura e a glória da Itália durante o Império Romano, assim como do nazismo alemão, que buscava instituir o Terceiro Reich por meio de um grande Império que duraria mil anos, exatemente como ocorreu com o Império Romano.

O conceito de Império, por sua vez, está diretamente associado com o conceito original de Dominium, que foi originalmente implantado em Portugal ainda na época do Império Romano. O prefixo “Dom”, associado aos reis de Portugal – ex: Rei Dom João, Rei Dom Sebastião – significava que ele era um líder limitar responsável pela proteção de um determinado território, ou Dominium, dentro do regime de vassalagem medieval.

O conceito de Império, no entanto, é ainda mais amplo do que o domínio do território restrito de um determinado Dominium e está associado principalmente com a disposição de um determinado Regime em exercer autoridade até mesmo sob aqueles que se encontram além das fronteiras e das propriedades exclusivas que delimitam aquele território, juntamente com a vontade de expandir os limites de seu próprio território, sempre se voltando contra um inimigo externo.

A principal diferença é que aqui, com a exceção da Guerra do Paraguai e a participação do Exército nas duas guerras mundiais, o Brasil nunca cultivou o inimigo externo, mas sim o inimigo interno, dentro da doutrina desenvolvida originalmente pelo General Golberi e mais tarde propagandeada pela Escola Superior de Guerra no mesmo período em que Bolsonaro atuou como cadete do Exército.

Bibliografia

Policante, Amedeo – HOSTIS HUMANI GENERIS Pirates and Empires from Antiquity until Today, 2012

Da Silva, Ademir Luiz – OS CAVALEIROS DA CRUZ VERMELHA A Ordem dos Templários na Reconquista e Expansão Urbana Portuguesa ( séculos XII e XIII ) – Dissertação de Mestrado, 2003

Leite, João Gabriel Ayello – Competição, Instituições e o Declínio do Império Português na Ásia, Dissertação de Mestrado, 2015

Mattos, Luiz – Apogeu e Decadência do Império Português: o profetismo bandárrico

Fonte: Publicado em Partido Pirata

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