Manual de conduta e resistência em tempos bolsonarianos

por Marcos Donizetti*

Escrevi para mim, mas deixarei aberto aqui, um manual de conduta e resistência ao que chamo de estratégia de controle do discurso e da libido. Bolsonaro atuará em duas frentes.

Imagem: Superinteressante/Abril

Num primeiro nível, declarações cada vez mais estapafúrdias e revoltantes, sem qualquer compromisso com fatos ou lógica, com frequentes idas e vindas, com avanços aparentes e desistências. O objetivo aí é o controle da pauta. É uma maneira de controlar não só a imprensa (é a estratégia de Trump) como os temas das conversas nas ruas, bares e condomínios (aqui entra em cena o WhatsApp). Não sei por quanto tempo isso funcionará, mas é assim, controlando o discurso e confundindo a todos, que as medidas (essas sim calculadas e planejadas) do segundo nível serão postas em prática sem maior resistência.

A declaração absurda toma de assalto as redes sociais enquanto uma emenda constitucional é votada, por exemplo. A “escola sem partido” e as mudanças no texto da lei antiterrorismo são estratégias de controle do discurso também, óbvio, mas talvez eles nem esperem tanto essas aprovações. Mantê-las em pauta é ótimo para manter a atenção (e a tensão) da oposição e da imprensa.

Mas e a libido que eu citei ali no início? Bem, acontece que a indignação é em algum grau catártica. Para nosso “aparelho psíquico”, a indignação antecipada com algo tem quase o mesmo efeito de vivenciar de fato este algo ou de agir contra ele. Quando eu compartilho uma fala do capitão dizendo “olha o que esse idiota está falando” minha indignação consome libido e consigo até mesmo algum gozo na captura também da indignação do meu grupo, garantida pelo algoritmo, e não raro meu psiquismo se dá por satisfeito. Dado que libido é um recurso finito que apenas muda de um ponto de referência a outro (grosso modo), o que “gastei” em meu gozo catártico indignado falta em outras atividades. É uma estratégia de controle dos corpos comum, clássica, potencializada pelas redes sociais. Um exemplo é a hipersexualização das relações e do ambiente (via mídia e publicidade, por exemplo) que resulta em sujeitos com menos libido investida nos encontros sexuais, mas isso é assunto para outro momento.

O fato é que a estratégia é gerar indignação para controlar a pauta e também garantir a paralisação dos sujeitos, que ficam meio que petrificados sem forças para resistir. O resultado é o sofrimento psíquico potencializado e amplificado, com mais depressão, desamparo e sentimentos de falta de sentido. De quebra, a indignação e o medo gerado na oposição alimentam parte da base apoiadora do sujeito. Esses garotos fazendo fotos com armas na mão perguntando “está com medo, safada” estão implorando pelo medo que vai alimentar uma fantasia fálica muito primitiva de poder neles. Eles se alimentam da indignação e assombro que esperam causar no outro, e não oferecer o que pedem é confrontá-los com um dado de realidade.

Mas não era um manual? Sim. Ninguém está dizendo que não pode mais demonstrar indignação e medo ou se revoltar com o absurdo. Mas é necessário ser “seletivo” com sua indignação (pois é). Se perceber que o tópico Bolsonaro te faz espumar e compartilhar coisas dele o dia todo, quaisquer coisas (fontes não faltam), pense em sair um pouco das redes sociais. Vá ver um filme, ler um livro, ouvir a música que você ama ou um disco novo. Consuma e produza arte, que é uma maneira e tanto de elaborar angústias e mobilizar forças, de forma crítica, inclusive. Arte ajuda a seguir e a mostrar que a vida continua lá fora. Convide alguém, que estar junto e compartilhar amor é uma forma de proteger os seus e de alimentar esperanças, conseguir força, redirecionar a libido.

É hora de usar o potencial mobilizador e de comunicação das redes em nosso favor: criando e fortalecendo laços, contatos que sem elas não seriam possíveis, articulando movimentos, coletivos, grupos de apoio. Que nossa ação não fique restrita à web. A melhor resposta a quem quer te capturar tanto pelo medo quanto pela indignação é seguir vivendo, sem esquecer da empatia para com os que estão sofrendo, mas investindo forte naquilo que você efetivamente pode fazer para ajudar e estudando, ouvindo e lendo muito para aprender formas de ajudar mais. É preciso estar atento aos movimentos “macro” do regime, saber onde eles estão efetivamente investindo. Isso estará sempre nas entrelinhas, ainda que Bolsonaro não tenha essa sutileza. É a receita que estou tentando seguir.

Há medo e indignação, claro que há, mas se me deixo capturar por esse gozo eu faço o jogo deles. Então enquanto invisto em formas de ajudar quem está precisando a resistir, preciso de maneiras de me cuidar, de não sucumbir à ansiedade e não me deixar paralisar pela confusão propositada dos discursos. E não esqueça que é preciso mais do que nunca estar com as pessoas. Não é sem motivos que ditaduras em algum momento proíbam reuniões.

Marcos Donizetti é psicanalista e escritor

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