YouTube é a nova militância para as mulheres?

por Giovanna Galvani

Foto: Penteadeira amarela

Influencer é militante? Três youtubers que tratam de gênero na internet respondem sobre atuação em temas das mulheres

Manifestações contra a Previdência e pela educação são duas das pautas que colocaram os brasileiros nas ruas ao longo do ano. Mas bastou um youtuber popular comprar todos os livros com temáticas LGBT de uma Bienal para a mobilização de políticos, apoiadores e críticos ser quase generalizada. Há uma potência dentro dos influenciadores digitais – e, entre eles, mulheres que levantam temáticas espinhosas como abuso psicológico, sexual e racismo estrutural e que querem ser degraus para um tipo renovado de ativismo.

Costumeiramente abordando temáticas relacionadas à sexualidade feminina e relacionamentos, Dora Figueiredo, que possui quase 2 milhões de inscritos em seu canal, viu-se em uma situação que não imaginava ser possível. “Eu, uma mulher feminista, com uma mãe que sempre falou para eu não depender de homem para ter minha independência… como eu fui parar dentro de um relacionamento abusivo?”, questiona.

A decisão por transformar o relato pessoal em um vídeo para o canal rendeu mais de 2 milhões de visualizações e a criação de uma hashtag para o tema, a #MeuExAbusivo. “Se eu fui parar dentro de um relacionamento abusivo, é porque não tem informação suficiente. A gente não fala sobre isso.”

A inserção da pauta do machismo não é novidade entre os conteúdos das influenciadoras digitais. Vivyane Garbelini, pesquisadora de gênero e feminismo na mídia, diz que entre 2014 e 2015, houve uma mudança forte na imprensa feminina com a consolidação do feminismo como pauta.

“Há muito nesse sentido de politizar o tema. Às vezes, o tema é moda, mas na noção de politizar a moda. O tema é relacionamento, mas não é mais aquele ‘ah, será que ele gosta de mim? ’, mas sim de falar sobre relacionamentos abusivos”, analisa.

A atuação política por mudanças sociais no campo das mulheres tem bons exemplos para se inspirar. A consolidação da Lei Maria da Penha, da PEC das Domésticas – articuladas com participação civil -, e os atos anuais pelo 8 de março – feita pela Marcha Mundial das Mulheres – contêm traços de ações que se organiza por grupos e pelo meio institucional. Na internet, a mobilização atende a outros requisitos.

Para Dora Figueiredo, que já fez parte de movimentos estudantis, a preferência por focar no conteúdo para a internet se deu pelo potencial de ajuda que ela percebeu em si: maior pelos vídeos, menos potente nos diretórios estudantis. A temática abordada por ela poderia ser um ponto de discussão para um aumento de 167% no número de feminicídios em 2019 apenas na cidade de São Paulo, por exemplo – o dado mais recente do Mapa da Desigualdade.

Foto: Reprodução da internet

Para Garbelini, existe uma massa de jovens que ainda não se identifica com uma militância tradicional que, geralmente, convoca protestos nas ruas. “É incompleto pensar num movimento de uma atuação só. Isso excluir a mudança efetiva nas políticas públicas”, diz, mas pondera que, se as pautas das mulheres não estão presentes no Youtube, Instagram e demais mídias, os lados mais à direita se empenham em tomar o espaço vazio.

A mescla entre um conteúdo para o canal com uma denúncia de um cenário bem conhecido também foi a frente que Julia Tolezano, a Jout Jout, tomou ao publicar um longo vídeo que sobre abuso sexual infantil. Ao conhecer um projeto do Ministério Público do Amazonas, ela decidiu falar para os mais de 2 milhões de inscritos sobre o que apurou em um vídeo longo e doloroso.

Entre os dados apresentados, 69% dos casos de abuso contra crianças de 2011 a 2017, de acordo com o Ministério da Saúde, foram cometidos dentro de casa. No total, mais de 184 mil crianças e adolescentes foram vítimas do crime.

Julia não sabe definir se o que faz é uma militância ou não, mas afirma que, com o canal e o alcance que possui, está menos focada em definir rótulos e mais engajada em construir o que chamou de “elaboração”.

“Existem frases feitas como “patriarcado é foda”, só que o que significa isso? Como estou viajando pelo Brasil, estou conhecendo muita gente e conversando com elas, e eu percebo o quanto que eu não elaborei ao longo dos três anos sentada em casa fazendo vídeos”, explica.

Gabi Oliveira, do canal DePretas, prefere ver a atuação das influenciadoras como uma nova forma de ativismo, já que vê a militância típica de outra maneira. “Eu ligo a militância a grupos mais organizados. Nós, como influenciadores, ativamos discussões por meio das redes sociais. A gente estimula isso fora também – na família e na escola, por exemplo. Mas as coisas não terminam nas redes”, conta.

Apesar da diversidade de assuntos que aborda no canal, Gabi percebe que temáticas relacionadas a autoestima e ao autocuidado de mulheres negras são os vídeos com mais repercussão. “Pessoas que não se olham positivamente são incapazes de lutar por uma causa que lhes afete”, opina.

Com reformas e crises que mais miram nas mulheres e atingem ainda mais mulheres negras, é tempo de ir para as ruas ou de falar na internet? Vivyane e as influenciadoras foram unânimes: um não exclui o outro. Para a pesquisadora, é importante focar em romper o silêncio:

“É pela fala que você dá linearidade para o que aconteceu. Só o desabafo dela já é uma ação, e se tentar fazer de um relato um movimento já é algo. Tudo o que rompe o silêncio tende a ser interessante e positivo”, diz.

*GIOVANNA GALVANI é repórter do site de CartaCapital

Fonte: Carta CApital

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