Violência tem cor: 86% dos 1.814 mortos pela polícia do RJ em 2019 eram negros

Para pesquisadora, os dados apontam uma conclusão incontestável: a permanência do racismo como política de Estado

A alta de mortes, que se seguiu em 2020 em plena pandemia da covid, fez com que o STF realizasse uma intervenção no estado proibindo operações policiais em favelas – Ezequiela Scapini

 

Um estudo realizado pela Rede de Observatórios de Segurança Pública em cinco estados brasileiros e publicado nesta quarta-feira (9) mostra que a população negra é a mais atingida pelas armas da polícia. Os dados foram obtidos via Lei de Acesso à Informação com as secretarias de segurança do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Ceará.

No estado do Rio, dos 1.814 mortos pela polícia em 2019, 86% são negros. O estudo informa que o Rio de Janeiro bateu o recorde dos últimos 30 anos em número de mortes por policiais e chama a atenção para o alto índice de negros como alvos enquanto 51% da população fluminense se declaram negros.

A alta de mortes, que se seguiu em 2020 em plena pandemia da covid-19, fez com que o Supremo Tribunal Federal (STF) realizasse uma intervenção no estado proibindo operações em comunidades durante os meses da doença.

“Medida que foi desrespeitada pelo governador em exercício Cláudio Castro. Houve um aumento de 415% de mortes em outubro e o Supremo precisou cobrar explicações. Em dezembro, mais duas crianças negras, Emylli e Rebecca, foram atingidas por balas perdidas”, detalha o estudo.

Para a coordenadora da Rede de Observatórios da Segurança e do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, Silvia Ramos, os dados apontam uma conclusão incontestável, a permanência do racismo como política de Estado.

“Com esses dados podemos mostrar que não é um viés racial, não é excesso de uso da força, não é violência policial letal acima do tolerado, é racismo. Quando analisamos a violência policial nós não conseguimos contabilizar abordagens violentas, espancamentos, humilhações do dia a dia, mas conseguimos contar os corpos empilhados nessas ações” explica Silvia Ramos.

Outros estados

Bahia – O estado vive uma escalada no número de violência. Novembro de 2020 foi o mês mais violento do ano com registro de 17 homicídios em apenas um final de semana. Amaralina já vive uma semana ininterrupta de operações policiais em dezembro. De acordo com relatório, a polícia baiana matou 650 pessoas em 2019 e 97%, quase todas, são negras. A população negra no estado é de 76,5% segundo o IBGE.

Ceará – Existe uma omissão quanto a cor dos mortos pela polícia no estado. 77% dos registros não possuem essa informação. Essa omissão é uma forma de racismo institucional que apaga os números de pessoas negras vitimadas. Sem números, as análises são comprometidas. Ainda assim, o estado possuí um percentual maior que o do Rio de Janeiro de negros mortos em ações policiais no último ano: 87%

Pernambuco – A violência no estado segue a tendência de alta nacional. Para cada dez pessoas mortas no estado, nove são negras – percentual de 93%. O número de mortos pela polícia no ano passado é o dobro de 2015. Somente no primeiro semestre de 2020 foram registradas 55 mortes em ações policiais.

São Paulo – Os homicídios em São Paulo estão caindo de forma drástica desde 1999. Passou da casa dos 44 para 8 homicídios por 100 mil habitantes, a menor entre as 27 unidades da federação brasileiras. No entanto,  20% de todas as mortes do estado são causadas pela polícia. Do total de mortos, 62,8% são negros, mesmo correspondendo a somente 34,8% da população paulista.

Fonte: Brasil de Fato

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