Por que regimes autoritários odeiam livros?

por Laura Astrolabio

Fascistas queimam livros durante a 2ª Guerra Mundial. Foto: Reprodução da internet

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O Vozes & Olhares – um projeto modesto de disseminação do conhecimento, do pensamento crítico e do aprofundamento de temas que são tratados de forma  simplista, e que acontece no formato de entrevistas ao vivo no Instagram @vozeseolhares –  entrevistou o curador de festivais literários, criador do Fliaraxá e escritor Afonso Borges.

Afonso respondeu perguntas como “por que os regimes autoritários têm ódio dos livros”,  tendo no campo de visão o cenário político em que estamos vivemos e cenários políticos outros da história da humanidade.

Ele disse :

o livro consegue estabelecer, assim como outras artes, como o teatro, o cinema e a dança, a empatia com as pessoas. O livro, de uma forma um pouquinho mais confortável, desenvolve a capacidade de você estabelecer experiências de vida que não teria de outra forma. O livro é muito legal, porque você lê a história da pessoa, vê o sofrimento dela, entende tudo aquilo que ela passou e você não precisa viver, você não viveu aquilo. Você entendeu, experienciou de forma que aquilo possa fazer parte do seu amálgama, da sua alma, da sua compreensão, e te torna uma pessoa melhor. Essa é a característica básica da arte em geral. Mas a literatura tem alguns ingredientes que diferenciam ela das outras artes

É esse despertar da empatia que temos em “O olho mais azul”, por exemplo, que foi o primeiro romance de Toni Morrison, escrito nos EUA da década de 60 e ambientado nos EUA da década de 40. Nele temos diante de nós as várias vivências de pessoas negras numa sociedade segregada, num pós abolição mal feito.

Pecola, a personagem principal do livro, é uma garotinha negra retinta que teve a vida atravessada por diversas violências, assim como o pai, a mãe, as amigas, todas negras, umas retintas, outras não.

A experiência com “O olho mais azul” não atua no desenvolvimento da empatia apenas de pessoas brancas, mas também de pessoas não-negras, de pessoas negras de pele não retinta e de outras que nunca tiveram a experiência de privações, além de nos preparar para entender o funcionamento do tão debatido colorismo.

O livro expõe sentimentos como raiva, vergonha, inveja e desprezo. Morrison também nos descreve, com riqueza de detalhes, as sensações de uma restrição alimentar, do “passar vontades” que é imposto pela miséria. Ela fala sobre a construção social do auto-ódio, da divisão sexual e racial do trabalho, passando pelas experiências do abuso sexual.

Com a leitura podemos refletir sobre os motivos pelos quais tantas pessoas negras e pobres são capturadas pelo discurso cristão conservador  que as transportam para um ambiente em que o mantra da esperança de ser e existir num lugar melhor, mesmo que somente após a morte, atua como ópio.

A ideia da construção social do amor romântico e dos padrões de beleza, a crítica com relação a indústria cinematográfica, a maternidade compulsória, a violência obstétrica, a loucura, o ser abandonado e rejeitado, a pedofilia, a hipocrisia, a supremacia branca, a leitura seletiva, as várias formas de amar, inclusive as violentas que deveríamos rejeitar, tudo isso é tratado num romance escrito por uma mulher negra. Esse foi um dos livros que li recentemente e que, tal como tantos à disposição, nos apresenta a mundos possíveis.

Uma sociedade que lê e desenvolve a empatia pelo outro, exercita a alteridade com admiração, amor e solidariedade pelo diferente. Abandona o ódio, o desprezo e o sentimento de superioridade quando se depara com o outro. Da mesma forma, a racionalidade egoísta, introjetada pela política neoliberal, que mata pessoas, que trabalha pela eliminação dos indesejáveis e pela naturalização da barbárie, fica prejudicada pela experiência literária.

Não foi, então, por acaso, que o atual presidente da República reclamou que os livros tinham muitas palavras e que seu atual ministro esteja trabalhando para taxar livros, ou seja, para torna-los menos acessíveis do que já são.

A falta de bibliotecas públicas, e até mesmo livrarias, em bairros distantes dos grandes centros, culminou na falta do hábito de ler, na falta do hábito de olhar para um livro e sentir vontade de toca-lo, de senti-lo, de experimenta-lo.

A crença limitante “livros não são para nós”, que Pierre Bourdieu bem explica quando desenvolve o conceito de habitus, é resultado de um projeto político de séculos. Quer dizer, essa falta foi e ainda é calculada, foi e é proposital, e atualmente caminha com a disseminação do ódio ao conhecimento, à ciência.

Aqueles que não têm o hábito da leitura foram cooptados pelo discurso de ódio aos livros e à ciência, que tem sido disseminado por uma elite política que trabalha para defender os projetos de uma elite econômica que depende, também, do ódio aos livros e do ódio ao conhecimento para limitar o exercício da empatia e naturalizar a desumanização de suas políticas de austeridade. Hitler determinou que os livros fossem todos queimados, mas hoje existem outras formas de agir pela eliminação dos livros que não seja queimando-os, que não escandalize tanto, que não remeta a associações tão diretas.

E não há como falar a respeito da importância da leitura como ferramenta para o desenvolvimento da empatia, sem mencionar o “lugar de fala”, porque é exatamente permitir e respeitar esse lugar de fala, que também é lugar de escrita, que nos lançará ao exercício  da empatia no lugar de leitura e de escuta.

O próprio Jorge Amado reconheceu que existe diferença na escrita daquele que viu, ouviu, ficou sabendo e contou da forma mais poética possível,  daquele que viveu e sentiu.

Em “Mar morto”  ele apresenta o livro dizendo

Vinde ouvir essas histórias e essas canções. Vinde ouvir a história de Guma e de Lívia que é a história da vida e do amor no mar. E se ela não vos parecer bela, a culpa não é dos homens rudes que a narram. É que a ouvistes da boca de um homem da terra, e, dificilmente, um homem da terra entende o coração dos marinheiros. Mesmo quando esse homem ama essas histórias e essas canções e vai as festas de dona Janaína, mesmo assim ele não conhece tosos os segredos do mar. Pois o mar é mistério que nem os velhos marinheiros entendem.

Assim, para além de ser um ato de resistência que continuemos lendo e tentando levar outros conosco em nossas viagens nas páginas que falam, ler aqueles que escrevem a partir de um “locus” social que está fora dos confortos proporcionados por privilégios nos trará experiências de leituras ainda mais ricas, que nos ajudarão a desenvolver não “apenas” a empatia, mas a hiperempatia, que é o que precisamos agora.

Laura Astrolabio é Advogada, mestranda de políticas públicas em direitos humanos do NEPP-DH da UFRJ, com pós graduação latu sensu em direito público, experiência com direito do servidor público federal e com compliance anti assédio moral nas relações de trabalho, inclusive no serviço público federal.

Fonte: publicado originalmente em Carta Capital

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