Dostoiévski como metáfora de um Brasil e de um mundo que ardem em 2020

Bufões como Bolsonaro e Trump nos governam, fazendo de nossos países e do planeta um verdadeiro inferno

Foto: Reprodução da internet

Estou lendo “A Aldeia de Stepantchikovo e seus habitantes”, de Fiodor Dostoiévski (Editora 34). Recomendo vivamente a leitura.

Sempre tive uma relação especial com os livros, acreditando que lemos o que precisamos no momento certo, aquele em que eles mais nos aproveitam e nós, mais aptos ao entendimento estamos. Uma verdadeira sincronicidade junguiana, de que encontramos exemplos nos evangelhos e na hagiografia dos santos.

De fato, o Cristo abre as escrituras na sinagoga, no início de seu ministério, e a página que encontra para a leitura é do profeta Isaías, anunciando a vinda do Messias, profecia que Ele declara estar se cumprindo naquele momento. São Francisco, semi-analfabeto, pede a um sacerdote que abra as escrituras para entender qual a missão que o Pai lhe designa. Instado, o sacerdote encontra a passagem em que o Cristo exorta os discípulos a irem pelo mundo pregar, sem levarem duas túnicas ou sandálias e sequer um cajado.

O livro de Dostoiévski – para mim, o melhor escritor de todos os tempos – retrata um senhor de almas e bens que se deixa dominar por um charlatão, algo que ocorreria posteriormente com a dinastia dos Romanoff, então reinante na Rússia, por meio de Rasputin e sua ascensão sobre o Tzar Nicolau II e a Tzarina.

Entretanto, as obras-primas, por serem universais e atemporais, servem de metáfora a outras latitudes e tempos. No caso do Brasil e do mundo atual, a metáfora é perfeita.

Bufões como Bolsonaro e Trump nos governam, fazendo de nossos países e do planeta um verdadeiro inferno. A figura de linguagem é, desgraçadamente, literal: o incêndio na Austrália trouxe sua fumaça ao Rio Grande do Sul, o que deixou um por do sol “lindo”, segundo a locutora do jornal da Rede Globo “Bom dia Brasil”, que, involuntariamente assisti hoje, por estar em hotel.

Arderam também dois moradores de rua, em São Paulo e Sergipe, ambos mortos pelas chamas criminosas e pelo neo-liberalismo que a essa condição de vulnerabilidade os reduziu, tendo aumentado em 60% o número deles, após o golpe de estado de 2016. Arderam também mais indígenas e terreiros de religiões de matriz africana.

Ardeu o general Qassem Suleimani, Comandante da Guarda Revolucionária do Irã e herói de guerra que estava no Iraque para negociações de paz com a Arábia Saudita, para o fim do desastre humanitário que assola o Iêmen, onde milhões de crianças passam fome.

Com isso, ardeu o direito internacional, pois o terrorismo de estado dos Estados Unidos da América mais uma vez se sobrepôs à civilização, ao direito e à justiça, o que, no dizer de São João Evangelista, é a própria definição de pecado: a injustiça.

Mais uma vez, ardeu o direito no Brasil, cujo incêndio nos últimos anos só encontra parâmetros naquele que vem sendo sistematicamente promovido pelo desgoverno Bolsonaro na Amazônia, onde latifundiários roubam terra pública todos os dias e aterrorizam os povos da floresta, com o intuito de que deixem suas terras.

Com efeito, o direito no Brasil sofreu uma de suas maiores derrotas: em apenas 20 minutos, o corregedor do Ministério Público arquivou 5 reclamações contra Deltan Dallagnol, cujas atuação e caráter dispensam adjetivos, até mesmo porque – no caso – inexistentes.

Arderam mais uma vez a honra e a soberania nacionais: na nota emitida pelo Itamaraty, em que apoia a ação terrorista dos EUA, assassinando um mandatário estrangeiro, o general Qassem Soleimani, sem que houvesse guerra declarada entre os dois países.

Com isso, mais uma vez, ardeu a memória do Barão do Rio Branco, que deu a vida para a defesa do território nacional (integralmente garantido por ele e não por nenhum militar, cujas armas só se voltaram contra o Paraguai – três a um, Brasil, Uruguai e Argentina contra o Paraguai – mas que frequentemente ao longo da história se voltam contra o próprio povo, como vimos nas eleições de 2018).

Ardeu o legado do Barão ao ver a resposta de Trump ao povo iraquiano, cujo parlamento votou a saída das tropas de ocupação após o assassinato do general Soleimani em Bagdá, ao qual Trump respondeu com todo tipo de ameaças e a negativa de deixar o país ocupado. Esse é o futuro que nos espera com a cessão de Alcântara; que sirva ao menos para a reflexão dos partidos de centro e até de esquerda que votaram a favor daquele absurdo.

Ardeu também a esperança de que ainda não estivéssemos sob um estado policial, apesar dos reiterados projetos de lei de Sérgio Moro para a instalação da ditadura policial (a nova face dela): a polícia federal foi autorizada a abrir 500 cargos de confiança, sem concurso, apenas por indicação política-ideológica, nos moldes das SS da Alemanha nos anos 30.

Como cereja no bolo (de fezes, desculpem a escatologia) o Brasil irá sediar, nos dias 5 e 6 de fevereiro próximo, a reunião do “Processo de Varsóvia”, que consiste no ajuntamento de todos aqueles países que acreditam na ordem policialesca, punitivista e imperialista.

O verdadeiro objetivo do convescote, pago com os nossos recursos, será discutir como os países lacaios, colonizados, como Brasil, Israel, Hungria e Polônia podem melhor fazer o serviço sujo para o capital financeiro internacional, destruindo mais o meio ambiente, matando mais moradores de rua, indígenas e todo aquele e aquela que a essa desordem se sublevar.

No entanto – e novamente citando São João – no amor, não há temor.

Feliz 2020 a todas e todos.

Fonte: publicado em Carta Capital

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