Helena Chagas: Não haverá governo sob a “vibe” da goiabeira

“Quem vê pode até se esquecer que Bolsonaro e os seus ainda devem explicações consistentes sobre a movimentação financeira atípica do assessor flagrado no Coafgate. Ou então imaginar que esse sujeito não tem um país inteiro, cheio de problemas, para governar daqui a 15 dias”, registra Helena Chagas.

Foto: Reprodução da internet

Em seu artigo, intitulado “Não haverá governo sob a ‘vibe’ da goiabeira”, Helena Chagas observa que temas ruidosos da agenda bolsonarista criam uma cortina de fumaça que permite ao presidente eleito fugir dos espinhosos problemas reais do país. “Às vésperas da posse, Bolsonaro continua se escondendo sob a mesma cortina de fumaça da reforma ideológica e dos costumes que usou na campanha para não ter que falar das questões concretas do dia-a-dia do brasileiro, talvez por não saber bem o que fazer com elas”, escreve Helena.

Após listar algumas polêmicas das últimas semanas, Helena Chagas comenta que Bolsonaro dedicou sua atenção ao tema da pena de morte (desmentindo o próprio filho) “da mesma forma como, na véspera, havia usado a rede social para defender Damares em sua goiabeira e, nos últimos dias, a falar da extradição de Cesare Battisti, do encontro da ONU que não quer sediar, da Cúpula Conservadora das Americas, etc.”

Está certo o que muita gente vem dizendo nas redes sociais: ninguém merece ser alvo de chacota por suas convicções religiosas. Deixem a Damares e sua goiabeira em paz, portanto. Respeitar as convicções da Damares, porém, não é achar que ela será uma boa ministra, e nem, sobretudo, aceitar que, a duas semanas da posse de um novo governo, o debate nacional gire em torno de goiabeira, escola sem partido, verbas publicitárias da Caixa, embaixada em Jerusalem, caça às bruxas ideológica e agora – pasmem! – pena de morte, entre outras pautas.

Ninguém merece essa agenda, que parece estar sendo estimulada pelo próprio presidente eleito e pessoas chegadas a ele, como os filhos 01, 02 e 03. Neste domingo, Jair Bolsonaro amanheceu negando, no Twitter, que pretenda debater a implantação da pena de morte em seu governo. O desmentido parece ser dirigido ao Jornal O Globo, mas se destina, na verdade, ao deputado Eduardo Bolsonaro, que defendeu o assunto no jornal.

Bolsonaro dedicou sua atenção a esse tema da mesma forma como, na véspera, havia usado a rede social para defender Damares em sua goiabeira e, nos últimos dias, a falar da extradição de Cesare Battisti, do encontro da ONU que não quer sediar, da Cúpula Conservadora das Americas, etc.

Quem vê pode até se esquecer que Bolsonaro e os seus ainda devem explicações consistentes sobre a movimentação financeira atípica do assessor flagrado no Coafgate. Ou então imaginar que esse sujeito não tem um país inteiro, cheio de problemas, para governar daqui a 15 dias.

A pauta da transição para o governo Bolsonaro vem ignorando solenemente as graves e urgentes questões que ele tem que resolver a partir de janeiro. Alguém tem alguma ideia de como será a reforma da Previdência que ele vai levar ao Congresso? E a tributária, recém-aprovada em comissão na Câmara, vai ser adotada ou engavetada? E as providências obrigatórias e imediatas que têm que ser tomadas para conter o aumento vergonhoso da miséria detectado por estudos recentes?

Pouco ouvimos, ou vimos nas redes sociais, o presidente eleito falar de empregos de forma construtiva e propositiva. Ouvimos Bolsonaro dizer que ser patrão neste país é horrível e sugerir que direitos dos trabalhadores sejam suprimidos. (Ele não disse isso com todas as letras na campanha, e, se o tivesse feito, talvez não tivesse sido eleito).

Às vésperas da posse, Bolsonaro continua se escondendo sob a mesma cortina de fumaça da reforma ideológica e dos costumes que usou na campanha para não ter que falar das questões concretas do dia-a-dia do brasileiro, talvez por não saber bem o que fazer com elas. Discursos desse tipo costumam sustentar a felicidade dos casais a lua-de-mel. Mas depois vêm as contas para pagar, o tanque cheio de roupa suja para lavar, as crianças choronas…

Governar vai muito além de bater-boca sobre a Damares e outros assuntos secundários. Não haverá governo sob a “vibe” da goiabeira…

Fonte: com informações do Vermelho.org/ O Divergente

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