Gilmar Mendes disse pouco dos militares

por Sergio Lirio

A indignação dos generais não muda a realidade: as Forças Armadas foram cooptadas como o Centrão

Foto: Maranhão Hoje

Forças Armadas, sob anonimato, declararam a jornalistas sua insatisfação com o tom do ministro do STF. O vice Hamilton Mourão soltou a clássica frase “passou dos limites”. Mas, no Brasil de Bolsonaro, Weintraub, Damares e Paulo Guedes, existem limites?

Não cabe dourar a pílula. As Forças Armadas são parceiras do ex-capitão Jair Bolsonaro na tragédia, no genocídio, segundo Mendes. E em outros desmandos. Diante dos mais de 70 mil mortos pelo coronavírus no Brasil, o que fez até o momento o ministro-paraquedista da Saúde, Eduardo Pazuello, general da ativa? Ao assumir, apostou que os brasileiros em geral eram tão estúpidos quanto os fiéis bolsonaristas e tentou, de forma desavergonhada e infantil, esconder os dados da doença. Talvez tenha acreditado que o vírus se comportaria como um recruta. Bastaria a ordem de um oficial para enfiar o rabo entre as pernas. Mas o vírus, aquele-que-não-se-deve-dizer-o-nome, ignorou a autoridade, traduzida de forma tão perfeita no semblante imponente de Pazuello, versão remoçada do Sargento Pincel dos Trapalhões, e continuou a matar milhares de brasileiros por dia.

O general não se deu por vencido. Perde-se uma batalha, mas não a guerra. Afiançado pelo comando das Forças Armadas, Pazuello aceitou a “missão” rejeitada pelos civis que o antecederam no cargo (note-se, até o abúlico Nelson Teich resistiu): mudou o protocolo da cloroquina, para alegria de Bolsonaro, lucro de alguns empresários e risco de milhares de pacientes. Enquanto isso, o Exército aumentava em mais de cem vezes a produção do medicamento. Temos estoque de cloroquina para 18 anos, embora a validade do produto não passe de dois. Um desperdício de dinheiro público a ser investigado.

Pazuello fez mais. Em outra tentativa de despistar as tropas do General Corona, confundiu o Hemisfério Norte com o Sul. O vírus não se deixou enganar –a covid-19, tudo indica, não usa bússolas ou mapas. E o ministro, aparentemente, não sabe usá-los. Resta torcer para o Brasil não entrar em uma guerra. Com esse senso de direção, é grande o risco de, a pretexto de invadir a Venezuela, nossos bravos paraquedistas saltarem sobre a Islândia.

Infelizmente, Pazuello só deixou de cumprir o que se espera de um ministro da Saúde. Apesar de apresentado como especialista em logística, o interino foi incapaz de entregar equipamentos e suprimentos aos hospitais na quantidade e velocidade necessárias. O Brasil, segundo em número de mortes, é um dos países que menos realiza testes da doença no planeta. Faltam respiradores, máscaras, luvas, planos, ideias… Combate-se o vírus pelo cansaço.

A responsabilidade dos militares vai, no entanto, além do “genocídio” apontado por Mendes. Os generais minimizam a destruição do meio ambiente, em particular da Amazônia. As operações de combate ao desmatamento, sob comando de Mourão desde o início do ano, são pífias e ineficientes. As queimadas continuam a bater recordes. Quando cobrados por ambientalistas ou investidores, recorrem ao patriotismo, o último refúgio dos canalhas, e à soberania, invocada em casos bens específicos. Nenhum pio, nenhuma nota de repúdio ou reivindicações de soberania saíram dos quartéis quando se destruiu o programa nuclear, entregou-se a Base de Alcântara aos EUA ou o secretário de Defesa norte-americano, Mark Esper, fez chacota do fato de Bolsonaro pagar um general para trabalhar para ele (falava de Alcides Valeriano de Faria Júnior, em serviço desde o ano passado no Comando Sul das Forças Armadas do EUA, às expensas dos Tesouro brasileiro).

A declaração de Mendes, bem, esta mexeu com os brios das Forças Armadas. E assim fomos obrigados de novo a ouvir a ladainha das ameaças. Quando vamos superar o eterno flerte golpista?

O ministro tem sido aconselhado a atenuar suas palavras em nome da “harmonia entre os poderes”. É possível que recue (sua primeira nota a respeito está longe disso). Mas, no fundo, sabemos: ele disse só parte da verdade. Por mais que tentem se eximir, as Forças Armadas estão nesta até o pescoço. Foram cooptadas tal qual os deputados e senadores do Centrão. Avalizam as barbaridades de Bolsonaro e os crimes da família em troca de cargos e benesses. Mais de 3 mil militares e parentes repousam seus quepes em cargos comissionados na Esplanada dos Ministérios, autarquias e estatais. Em meio à mais grave crise econômica da história do País, as tropas ganharam um prêmio, bonificação calculada em 26,5 bilhões de reais. Milhares de recrutas embolsaram ilegalmente os 600 reais de auxílio emergencial negado a mais de 10 milhões de civis em situação de desespero. Ao contrário dos trabalhadores do setor privado e da maioria dos servidores públicos, obrigados a contribuir por mais tempo e receber aposentadorias menores, a reforma da Previdência das Forças Armadas não passou de um plano de cargos e salários com ganhos fiscais nulos para as finanças públicas.

São muitas sinecuras para oficiais tão despreparados quanto Bolsonaro, torturadores da língua e da lógica, ausentes, omissos e descolados da realidade, incapazes de localizar por onde passa a Linha do Equador ou de apontar a diferença entre a tomada e o focinho do porco. O Centrão, muito mais competente e ilustrado, teria todo o direito de reclamar da diferença de tratamento.

Sergio Lirio é redator-chefe da revista CartaCapital.

Fonte: publicado originalmente em Carta Capital

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